O corpo

“Uma cultura focada na magreza não revela uma obsessão sobre a beleza feminina. Mas sim, uma obsessão sobre a obediência feminina. Fazer dietas é o sedativo político mais potente na história das mulheres; uma população passivamente insana pode ser melhor controlada.” Naomi Wolf.

“Existe mais sabedoria em seu corpo do que em sua mais profunda filosofia”. Friedrich Nietzsche.

“O corpo é o lançador de foguetes. Na sua cápsula, a alma espia lá fora a misteriosa noite estrelada e se deslumbra.” Clarissa Pinkola.

Imagine que chegou até suas mãos um texto escrito em sânscrito. Mas você, no caso, não sabe ler sânscrito. Bem, das duas, uma: você pode ignorar o presente recebido, porque ele afinal não lhe diz absolutamente nada; ou pode se virar, correr atrás, tornar-se capaz, se instrumentalizar, sei lá, para compreender o que aquilo tem a lhe dizer…É questão de escolher.

Com nosso corpo é a mesma coisa. Ele nos foi dado como um poderoso guia. Um mensageiro, um mapa com registros da nossa ancestralidade, caminhos percorridos e expectativas. E apesar de a leitura desse guia ser um tanto subjetiva, além de dificílima, ela deve ser vividamente almejada.

Não por outra: o corpo é um poliglota de sentimentos e sentidos, e temperaturas, e cheiros, cores, ritmos.

O corpo sabe. O corpo não mente. O corpo lembra. O corpo é convicto.

De modo que é óbvio: ser seu aliado é valiosíssimo. É ser capaz de ouvir o inaudível e de sentir até o que não faça sentido. Porque enquanto a mente pode perfeitamente ser trapaceada, o corpo não falha. De modo que só pensar e pensar – pensar em ser, pensar em alcançar, pensar positivo, pensar bem e pensar outra vez, para enfim provar que muito se pensa, é exatamente ignorar sua própria magnificência.

De tanto sermos ensinados a pensar, e julgar, e medir, e planejar, finalmente, aprendemos: nos tornamos “inteligentes”. Consumimos, vendemos, praticamos o que seja preciso para alcançar nossos “objetivos”. Mas é então que cedemos o volante ao outro. É então que perdemos a guia e nos tornamos ausentes seres pensantes.

E a arquitetura do mundo, como se sabe, é eficaz em plantar em nossa mente, nos fazendo acreditar que era originalmente nossa, a semente. Ou, em português claro, o mundo não está exatamente interessado no desenvolvimento do nosso autoconhecimento. Ao contrário, padrões de pensamento seguem sendo empurrados de cima para baixo, limitando, para não dizer massacrando, a intuição inata com a qual fomos presenteados.

Imagine há quanto tempo somos “orientados” sobre como detectar e valorar da beleza, por exemplo. Chega a ser engraçado…Lutamos, nos esprememos, ardemos para ser um “corpo ideal”? Um tipo de peito, um tipo de barriga, um tipo de coxa, um tipo de sobrancelha, um tipo de cabelo…Coisa mais Mobral!

Feito bobos, julgamos e somos julgados, ensinamos e somos ensinados a odiar o próprio corpo – caso ele esteja “errado”. Esvaziando o vínculo instintivo que exista com nossa residência temporária. Condenando e sendo condenados a descobrir se somos bons ou não, baseados na nossa reles, passageira, aparência.

Ao invés de correr atrás de um corpão sarado, melhor seria correr atrás de um corpo conectado, legível e amado. Precisamos dessa essência. Aliás, é urgente resgatar a conexão com nosso corpo natural, para poder, enfim, dizer um delicioso “não” à ilusão tosca de que a felicidade só será concedida àqueles que alcançarem a “configuração padrão”.

(Texto de Maria Sanz Martins. Publicação autorizada).